Uma entrevista com o lendário ídolo vascaíno Carlos Germano


Lendário ídolo vascaíno Carlos Germano

Confira entrevista de Carlos Germano à Guerreiros do Almirante

Em 29 de junho de 2008, um grupo de torcedores seguiu até Vargem Grande, no CFZ, para encontrar um dos grandes ídolos da torcida vascaína, Carlos Germano. Com intuito de mostrar-lhe a homenagem prestada pela Guerreiros do Almirante, através de um trapo (bandeira), aproveitaram o encontro para um bate-papo para que ele pudesse conhecer um pouco mais sobre a história e as idéias do movimento. Através de uma antiga rede social, numa nossa comunidade do extinto Orkut, torcedores enviaram algumas perguntas para lendário Carlos Germano. Segue abaixo o resultado da entrevista.

Quais as músicas da sua época de jogador que você mais gostava?
Eu joguei algumas partidas com o samba-enredo acho que da Estácio, em 88, na época em que jogava o Geovani – que não recordo agora – e também o samba-enredo da Unidos da Tijuca, do centenário.

E atualmente tem alguma música que você goste?
Tem a do Juninho agora, que o pessoal fez do “Caldeirão”, que a gente consegue identificar, às vezes naquela confusão toda não dá pra entender a letra bem. E também na televisão eles mostram a letra e dá pra você acompanhar um pouquinho.

Pelo o que você conhece, o que você acha do Ideal desse Movimento, Guerreiros do Almirante?
Eu acho interessante porque foge à regra das torcidas que você vê por aí, quando se parte do princípio que o apoio é fundamental ao time, independente do resultado, porque lógico que tem dias que não tem como, dentro de casa mesmo a gente não tem uma boa apresentação, mas acho o incentivo sempre melhor que a cobrança, as vaias. Se o ideal de vocês é esse, o incentivo constante, aos jogadores em si e ao próprio clube, acho que é o caminho certo, se todo torcedor partisse desse princípio seria melhor.

Falando um pouco mais sobre sua carreira… Você considera a defesa da cabeçada do Oséas, na final de 97, a mais importante da sua carreira?
Pelo momento foi crucial, no final da partida. Não sei se ali, aos 40 e poucos minutos do segundo tempo, o Vasco não teria força para uma reação, se de repente fosse no início da partida, com o Maracanã lotado e o incentivo do torcedor a gente poderia reverter o quadro, agora pela circunstância de final de jogo, acho que seria um pouco complicado. Não foi das mais difíceis, lógico que toda cabeçada é difícil, por não saber aonde a bola vai, pro goleiro principalmente é muito difícil esse tipo de jogada, mas foi importante. Foi importante pra todo mundo, e acredito que o homem lá em cima estava olhando e não tinha como tirar o título da gente, não.

E qual foi então o momento mais marcante da sua carreira?
Tem umas passagens importantes no Vasco, em 92 foi quando eu passei a jogar efetivamente, que eu tive uma oportunidade. Era o Joel o treinador, e o que me marcou foi que eu joguei do lado do Roberto, maior ídolo do Clube, então você está jogando ao lado dele, jamais podia imaginar que um dia isso iria acontecer, e a gente foi campeão invicto aquele ano. Ano seguinte, em 93, teve a despedida do Roberto, que eu estive presente. Jogou Roberto e o Zico também vestiu a camisa do Vasco e participou daquele jogo, são umas coisinhas que vão ficando marcadas. Os títulos ficam sempre marcados. Um título nacional é importante, porque não é fácil você jogar um campeonato brasileiro, aí depois vem uma Libertadores no ano seguinte, no centenário do Clube você conseguir um título importante como a Libertadores, foi bom. Infelizmente não conseguimos trazer o Mundial, seria fechar com chave de ouro tudo o que a gente tinha planejado, os momentos difíceis, ficar um mês concentrado em hotel, exclusivamente para ali, viajar antes. Foram 3 anos, desde a volta do Edmundo, aí fez um timaço como o de 97, tentaram manter aquilo pra final do Mundial, e de negativo mesmo acho que só esse Mundial que a torcida merecia, acho que todo mundo merecia aquele título ali, mas a gente chega lá. Tem muita água pra rolar por debaixo da ponte, acho que o Vascão tem chances de ganhar um Mundial tranquilamente, com as mudanças, com tudo que vem acontecendo. Hoje entra o Roberto saí o Dr. Eurico, amanhã entra outro e o Vasco continua em busca sempre do melhor, sempre ser forte com a força que existe, e de repente chegar a um Mundial, e quem sabe futuramente não estou trabalhando lá dentro de novo, treinando goleiro, como segurança, como contador de piada…

Outra questão era realmente essa, se você tem alguma pretensão de voltar a trabalhar no Vasco.
Pretendo sim, pretendo desde a época que eu saí do Clube e fui pro Santos. Sempre deixei claro que tinha um projeto pro Clube quando voltasse, sempre foi muito claro pra mim que eu voltasse como treinador de goleiro. De repente com o Roberto pode acontecer, com o Eurico talvez acontecesse, eu estava até conversando com o Euriquinho a respeito de repente ter essa volta como treinador de goleiro. Eu treinaria os goleiros profissionais do Vasco, durante a semana traria jogadores das categorias de base, o goleiro dos juniores, do juvenil e até o do mirim para treinar com os profissionais, aí dentro desse processo todo, além de treinar os profissionais, ficaria no clube o dia todo para participar do treinamento das categorias de base, mas só especificamente com a parte de goleiro, e tentar descobrir alguma coisa que o Vasco tem deixado um pouco a desejar, nesses 5 últimos anos, desde a saída do Fabio, o Vasco não conseguiu firmar ninguém ali. Jogou o Mazaroppi 10 anos, jogou o Acácio, depois eu joguei 10 anos, o meu substituto seria o Hélton que poderia hoje tranquilamente jogar pelo Vasco pelo o que é, mas saiu precocemente com 2 anos, depois saiu o Fábio também, e o Vasco na conseguiu firmar, quer dizer, isso vem de baixo.. O Mazaroppi veio de baixo, o Cássio, eu vim de baixo, o Elton veio de baixo. O projeto é justamente esse, descobrir alguns talentos na divisão de base, uns 2 ou 3 goleiros, para que o Vasco durante uns 10, 20 anos não precise contratar para essa posição. Contratar lateral, atacante, mas goleiro vai estar muito bem servido.

Desde o Fábio não vemos goleiros do Vasco na seleção Brasileira…
Primeiro você descobre, primeiro você tenta trabalhar o que você tem, e consequentemente em cima do trabalho, do grupo, do momento do time, porque o goleiro também depende muito disso, se está defendendo um time bom, se está fazendo um bom campeonato e ser lembrado novamente. O Vasco sempre teve essa tradição de ter goleiros de ponta, que durante o campeonato o Goleiro consiga pro time de 20 a 22 pontos de repente nas partidas, salvando e ajudando, e que venha novamente ou nas divisões de base, ou no pré-olímpico ou na seleção principal possa novamente de repente um goleiro lá.

Qual sua opinião sobre o atual goleiro do Vasco? Há algo que ele possa fazer para melhorar?
Eu estive conversando com o Tiago há um tempo atrás, fui visitar o Edmundo, faz umas duas semanas, aí eu conversei com o Tiago. Eu acho o Tiago um belo goleiro, ele é novo, tem condições de ficar no Vasco durante uns 8, 10 anos, isso só depende dele. Você sempre torce e é apaixonado pelo Clube, mas se você for olhar o elenco do Vasco e for comparar a uns 3 ou 4 times, você não tem condições de repente de almejar um título, e o goleiro vive disso. O goleiro depende de uma boa zaga, depende de um time muito bem montado porque senão acaba sofrendo lá atrás. E eu falei com o Tiago isso, "se prepara porque é o seguinte: quando um começar a arrebentar, quem sofre sempre é o goleiro, ou é o goleiro ou é a zaga, então tente evitar o pior", se puder vai ser muito bem vindo, vai ser goleiro pra vários anos de Vasco da Gama e trabalhar sempre. Acho que o Tiago tem tudo pra permanecer, e lógico que querendo, trabalhando muito, sempre com dedicação, tem muito o que crescer, mas ele tem capacidade pra isso.

Voltando à sua carreira no Vasco, quais eram seus grandes amigos de elenco?
Na época que você joga, o convívio é diário, mas é aquele momento ali de duas ou 3 horas de treinamento, o convívio de concentração, de viagens. De freqüentar, sair com a família, era mais difícil porque o tempo vago que era pouco, você ficava em casa. O Edmundo já é amigo desde juvenil que a gente jogava junto, eu tenho uma amizade muito forte com o Márcio o goleiro, o Tinho que jogou também, foi goleiro nosso, com o Leandro Ávila. Foi também por causa dos filhos, todos com praticamente a mesma idade e brincam juntos e a gente tem essa afinidade. O Edmundo, não é de hoje, é Vasco, é Seleção, a gente morava no mesmo alojamento, então tem essa amizade juntamente com esses outros que eu falei, que a gente sempre morou junto embaixo das arquibancadas lá, e fica essa coisa família, a gente se fortalece com isso, e nos momentos bons e nos momentos ruins pra você estar firme. E o Edmundo, eu já tinha falado por telefone pra esquecer esse negócio, tem que jogar até os 40, ficar um pouco mais, pro Clube é bom ter um ídolo, às vezes você fica 1, 2 anos ou até como hoje, 5 anos sem título, mas um ídolo não pode faltar. Ter um cara de referência dentro do grupo, o Edmundo, hoje também com o Roberto voltando como presidente, então tem que ter uma pessoa pro torcedor vibrar, torcer pro torcedor saber que ele vai decidir uma hora e ter a paixão pelo cara também, está ali pelo que fez e isso é importante.

E que você acha dos jogadores hoje em dia, não ter essa ligação direta com o Clube que joga, como você foi, você é conhecido como Carlos Germano do Vasco.
E isso sempre vai ser… Acho que mudou muito toda essa situação do jogador não ter mais essa identificação com o Clube, mesmo sendo formado em casa, acho que foi depois que a da Lei do Passe foi feita, hoje o jogador vive de acordo com o contrato que ele assina com o clube. Se o contrato é de 1 ano, é 1 ano que ele vai ficar depois ele está livre pra seguir o caminho dele. Na nossa época mesmo tinha aquele negócio de ser estipulado seu passe na federação, quer dizer, então você sempre fazia contratos mais longos, de 2, 3, 4 anos e vivia dentro do Clube dessa forma. Acho que até os jogadores do Clube mesmo, que foram formados na divisão de base, se tivessem esse tipo de situação, se chegassem pros meninos pra fazer um contrato mais longo, de 4 ou 5 anos, acho que não teria problema nenhum, acho que eles ficariam, passam por tantas coisas ali dentro e de certa forma aprende a gostar do Clube também.

Quando você começou a jogador no Vasco, você não demorou muito pra ser campeão na categoria profissional. Como você vê esses jogadores que vêem da categoria de base, são pratas da casa mas não estão conseguindo trazer um título?
Acho que é o momento do Clube também, quando você tem um elenco forte, é mais fácil subir um jogador. Por exemplo, hoje a gente falou antes do Alan Kardec, tem o Pablo ainda subindo, que é um grande jogador, na minha opinião tem tudo pra ser um dos melhores, mas acho que precocemente. Eu acompanhei o Alan Kardec na divisão de base do Vasco, no juvenil, e o Vasco foi jogar a Taça São Paulo Junior com esse juvenil, quer dizer, o Alan Kardec não passou pelos juniores do Vasco, não teve essa formação de, de repente jogar no Maracanã, uma preliminar, então tudo isso faz parte, faz parte pra você se fortalecer. De repente os garotos sobem em uma situação em que o Clube tem seus altos e baixos dentro da competição, acabam não rendendo aquilo que de repente todos estavam esperando por serem a promessa que são. Acho que com esses jogadores, precisa ter um pouco mais de paciência, esperar fortalecer o grupo do Vasco em relação ao campeonato nacional para poder ir lançando aos poucos.

Qual elenco do Vasco você gostou mais de jogar? E qual o que você percebeu que tinham mais dificuldades em conquistar vitórias?
Na década de 90 nós tivemos momentos bons, de 92 a 94, um tricampeonato, o Vasco conseguiu montar bons times. Em 95 e 96 foi triste, tinha um ano desse daí que a gente não ganhava de ninguém, no Brasileiro mesmo a gente corria até risco, acho até que foram nos 2 anos que a gente correu risco de rebaixamento, ficando ali em 19º, 20º, e pra Vasco é ruim demais. A gente ficava 7 partidas sem vencer, de repente você vencia uma partida fora, como o Cruzeiro que aconteceu, depois você ficava 5, 6 partidas sem vencer, foram anos ruins. De 97 pra lá que começou a melhorar. Quando você tem bons patrocinadores, gente que investe, acho que você tem condições de montar bons times, como Vasco fez em 97 e em 98, foi uma década maravilhosa, acho que é por aí também.

Nesse ano de 98, onde o Vasco não conseguiu trazer o Mundial, qual era o pensamento do elenco? Quando vocês ganharam do River Plate, estavam confiantes no título, e até mesmo depois de ganhar do Barcelona de Guayaquil alguém achava que esse título não pudesse ser nosso?
Quando a gente ganhou do River Plate foi uma final antecipada, embora a gente soubesse que o Barcelona seria um jogo difícil, porque lá também tem um estádio enorme pra 90 mil pessoas e você encontra dificuldades. Você vê aí o Fluminense disputando agora, ganhou do Boca Juniors, o que foi uma final antecipada, mas teve uma surpresa nesse primeiro jogo. E depois que a gente foi campeão da Libertadores, não tinha favorito, porque daí você pega um Real Madrid, uma escola também que estava acostumada a vencer, seria um jogo realmente difícil. A gente só foi dar uma engrenada mesmo no final do 1º tempo, a gente não começou bem aquela partida, e no 2º tempo só deu Vasco, mas são coisas que tem que acontecer, a gente tinha tudo pra vencer no 2º tempo daquela partida. Estávamos confiantes, bem condicionados, em um único cochilo na hora que a gente não podia errar, foi quando aconteceu, única bola que tinha chegado ao nosso gol no 2º tempo foi a bola do Raul, em um lançamento onde praticamente todo o time do Real Madrid estava cansado, a gente estava mandando no jogo e deu no que deu, aquele corte do Vítor, ele tinha acabado de entrar, e a gente voltou pra cá desanimado, foi triste.

E com relação a sua carreira profissional agora? O que você está fazendo?
No final do ano passado comecei a treinar os goleiros do Joinvile – SC, pela WL do Wanderlei. Recebi o convite, fui e fiquei 4 meses no campeonato catarinense. Voltei em abril pro Rio e estava em casa, levando filho pro colégio, buscando, indo aos jogos do Vasco, aí o pessoal aqui do CFZ me chamou pra ficar aqui, vão jogar a jogar a 2ª divisão agora em agosto, e a gente começa uma preparação agora no meio de julho, a partir do dia 2 já começa uma preparação pra ver se esse time consegue subir pra 1ª divisão.

Para encerrar, deixe uma mensagem para toda torcida vascaína que tem você como um ídolo.
A mensagem é sempre que o Vasco, acima de tudo, tenha o amor pelo Vasco. Pra os que vão sempre ao estádio, acho que o Clube do Vasco precisa mais do torcedor do que do próprio time. Acho que o incentivo do torcedor fora é importante, o jogo que vocês tiveram contra o Corinthians–AL, eu também assisti aquele jogo, que é daquela forma que o Vasco fica imbatível, acho que independente do time que tenha. O torcedor tem que comparecer sempre, se tiver casa cheia melhor ainda porque eu acho que o Vasco consegue, através do torcedor o Vasco tem força pra almejar uma colocação muito boa nesse nacional. “Obrigado vocês pela visita. Pra gente é bom, pra gente que pára e gosta do Clube, e você receber uma homenagem como essa é muito bom, é gratificante mesmo.”

Fonte: Site da Guerreiros do Almirante

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