Crise exige nova vanguarda social, despida de ilusão com o pacto formado pelo lulismo


Os artigos que de forma regular escrevo sobre a economia brasileira são publicados, generosamente, entre outros veículos, pelo Correio da Cidadania, portal de informações, matérias jornalísticas e opiniões extremamente úteis para todos os interessados em conhecer pontos de vista alternativos ao que, em geral, encontramos na chamada mídia dominante.

Claudio Campos, leitor desse portal, me agradece pelas minhas contribuições, mas, lembrando que no dia 23 de setembro ele passou “oficialmente a idoso”, me indaga, frente ao meu artigo da semana passada (O dólar sobe), qual a saída que temos. Ele, me parece, está muito mais preocupado em encontrar alternativas para o impasse que vivemos do que em meras considerações sobre a marcha do dia-a-dia da economia.

O leitor tem razão. A análise da economia, bem como das demais ações desenvolvidas pelo governo, sob o prisma da política, e dentro de uma perspectiva transformadora, deve ser apenas um instrumento para melhor auxiliar a todos os que lutam por uma nova ordem.

Nova ordem em favor dos trabalhadores e demais setores sociais que percebem a contradição entre a dinâmica de funcionamento do capitalismo, seus valores e as necessidades de vida das maiorias, especialmente frente à perigosa crise que vivemos.

Sou de opinião favorável à mudança substantiva da política macroeconômica. A macroeconomia que temos é a recomendada por bancos e transnacionais. Perdura, em suas linhas gerais, desde janeiro de 1999, quando a primeira fase do Plano Real sucumbiu, com a tentativa de se manter a nova moeda atrelada ao dólar. Desde então, com a interferência do FMI, passamos a adotar o câmbio flutuante, metas fiscais de superávit primário e, como referência à política monetária, o sistema de metas de inflação.

Sem prejuízo de outras reformas que se fazem absolutamente necessárias – como a tributária, a agrária, a dos serviços públicos e a da previdência (em uma perspectiva totalmente distinta da defendida pelos liberais) –, precisaríamos de uma macroeconomia que colocasse o crescimento econômico, a geração de empregos de qualidade, o fortalecimento da produção nacional e a distribuição de renda e riqueza como objetivos maiores a serem alcançados.

A dificuldade que encontramos hoje, aqui no Brasil, começa pelo fato de não existir concordância, ou reconhecimento, sobre a grave crise em que estamos mergulhados. Ao contrário, catapultados pela mídia dominante nativa e internacional, os governos de Lula e Dilma são avaliados positivamente e responsabilizados pelo que chamam de “emergência do país no cenário internacional”. A política econômica, naturalmente, e o Programa Bolsa-Família são apresentados como exemplos de políticas bem sucedidas e que colocariam o Brasil, finalmente, na rota de um desenvolvimento “sustentável”.

Da nativa TV Globo ao jornal londrino Financial Times, os elogios são rasgados. O ex-presidente Lula, por exemplo, é levado por várias corporações internacionais, especialmente do mundo financeiro, para os quatros cantos da Terra, onde promove palestras regiamente remuneradas e transmite um pouco da sua “exitosa” gestão presidencial.

No campo da economia, o acelerado processo de endividamento do Estado, das famílias e das empresas, especialmente no mercado externo, é minimizado – ou mesmo negado. A desnacionalização do parque produtivo e a crescente dependência do país, para o seu financiamento externo, da exportação de commodities agrícolas e minerais ou da atração de recursos financeiros da especulação internacional são consideradas normais.

No plano social, a falência das políticas sociais de educação e de saúde, por exemplo, parece não ter importância alguma. E a crise de mobilidade urbana das nossas grandes cidades, sufocadas pelo automóvel e carentes de transportes públicos de massa, também é desconsiderada.

Caso nos voltemos para a esfera institucional, as notícias dos jornais falam por si só. Integrantes da cúpula do Poder Judiciário se insurgem contra a corregedora do Conselho Nacional de Justiça, por conta de uma corajosa declaração da magistrada, apontando a existência de “bandidos escondidos atrás da toga”. O mandante da morte da juíza Patrícia Acioli, recentemente assassinada aqui no Rio, teria sido, de acordo com a própria polícia, o ex-comandante do Batalhão da PM de S. Gonçalo, quartel investigado pela juíza, por conta de um conjunto de crimes praticados por integrantes daquela unidade.

E no plano do Poder Legislativo, o presidente da Câmara se apressa para tentar justificar uma sessão da Comissão de Constituição e Justiça que, com apenas dois parlamentares presentes, aprovou, em três minutos, 118 projetos. Em tempo: a referida sessão aprovou outorgas e renovações de rádios e TVs, outra verdadeira bandalha que institucionaliza o universo dos meios de comunicação de massa, dependentes de concessão pública.

Portanto, para aqueles que reivindicam uma saída para o impasse em que vivemos, uma primeira tarefa seria conseguir criar uma massa crítica de informações, capaz de desvendar essa realidade ocultada das maiorias, ao menos para setores de uma vanguarda social, disposta a enfrentar as duras batalhas que temos à frente.

Contudo, e esse me parece o problema mais grave, esses setores da vanguarda social, em sua maioria, se encontram absolutamente iludidos – ou cooptados – pelo pacto social forjado pelo lulismo.

O pacto social lulista trouxe novos atores para o interior do bloco de poder original que sustentou o Plano Real, formado por bancos e transnacionais. O chamado agronegócio e uma elite de trabalhadores vinculados aos fundos de pensão fechados, junto com os partidos que eram de esquerda e criticavam anteriormente o modelo neoliberal, passaram a fortalecer a opção adotada pelas elites dominantes, a partir dos anos 90.

É esse processo que explica – e justifica – o fato de um parlamentar como Aldo Rebelo, do PCdoB, ser festejado pela senadora Kátia Abreu, expoente política do latifúndio produtivo; ou Bresser Pereira, o estrategista da reforma administrativa de FHC, exercitar contorcionismos pseudo-teóricos para defender o modelo dos bancos e das transnacionais, sob gestão do lulismo, como “neo-desenvolvimentista”.

Desse modo, uma segunda tarefa, simultânea à primeira, seria reconfigurar uma nova vanguarda social, despida de qualquer ilusão com o lulismo e capaz de reinterpretar o diagnóstico da crise em que nos encontramos mergulhados, estabelecendo novos objetivos de luta e organização do povo. E esta não é uma tarefa das mais simples.

Estamos em um tempo de plena hegemonia do regime do capital e, aqui no Brasil, vivemos esse paradoxo da metamorfose política da ex-esquerda. Recolocar a luta social e política em um novo plano demandará tempo. Tempo político, distinto do tempo cronológico, mas tempo. Tempo onde a perseverança e a firmeza de princípios, junto com criatividade política e o conhecimento da realidade em permanente mutação, se farão, mais que nunca, necessários.

Escrito por Paulo Passarinho é economista e membro do Conselho Regional de Economia do Rio de Janeiro.

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